O MURO

ou a psicanálise à prova do autismo


Legendas disponíveis em inglês, espanhol, dinamarquês, italiano, francês, português, russo e neerlandês
 

O filme emblemático da causa do autismo na França

Os países francofones têm mais de 40 anos de atraso no tratamento do autismo em relação a outros países desenvolvidos. Uma situação que fez com que a França fosse condenada, diversas vezes, pelo Conselho Europeu. Este filme de 52 minutos explica por que. Nesses territórios, a psicanálise ainda domina largamente a psiquiatria infantil, reivindicando uma situação hegemônica. O MURO expõe o ponto de vista psicanalítico sobre o autismo, pela boca de dez psicanalistas e um pediatra próximo de seus círculos. Pela primeira vez, eles explicam suas teorias em um discurso acessível aos profanos.

Os psicanalistas confiam à câmera sua rejeição à ciência em geral, e às ciências do comportamento em particular, cuja existência eles sentem como uma invasão.
Na frente da câmera, eles expõem longamente suas convicções íntimas sobre as causas do autismo: uma psicose induzida por uma má relação materna; e as perspectivas oferecidas pelo tratamento psicanalítico desse transtorno: a institucionalização em estabelecimentos psiquiátricos.

O MURO foi dirigido em 2011 por Sophie Robert, e produzido pela OCEAN INVISIBLE PRODUCTIONS, em parceria com AUTISTAS SEM FRONTEIRAS. Esta associação, presidida por Vincent Gerhards, milita pela escolarização das crianças autistas.

Este filme permite tirar o chumbo que pesa sobre o tratamento dos transtornos invasivos do desenvolvimento na França e na Suíça e na Bélgica francofônicas.
Divulgado em setembro de 2011 no site dos Autistas Sem Fronteiras, o MURO se espalhou em alguns dias de maneira viral pela rede no mundo inteiro.

Um mês após sua difusão, três dos psicanalistas entrevistados (Alexandre Stevens, Eric Laurent e Esthela Solano), todos membros da mesma organização: ESCOLA DA CAUSA FREUDIANA, dirigida por Jacques-Alain Miller, entraram com uma ação urgente contra a diretora Sophie Robert, sua sociedade de produção OCEAN INVISIBLE PRODUCTIONS e a associação AUTISTAS SEM FRONTEIRAS com o objetivo de proibir o filme.

Os três psicanalistas incriminaram a montagem de um filme militante que teria tornado suas propostas ridículas e dogmáticas.
Eles reclamam 290.000 euros por danos e interesses à diretora, sua sociedade e à associação Autistas Sem Fronteiras.
Sua ação na justiça produziu um aumento no interesse pelo filme e chamou a atenção de jornalistas do mundo inteiro sobre a situação do autismo na França.

Em 8 de dezembro de 2011, o processo reuniu duas manifestações de pais de autistas, uma em Lille onde a sessão é contida, e outra em Paris, em frente à sede da Escola da Causa Freudiana, para apoiar a diretora.
Em 26 de janeiro de 2012, Sophie Robert apresentava seu filme durante um congresso de psicólogos na Filadélfia, quando o veredito saiu: o filme foi censurado e a diretora condenada a retirar as entrevistas dos três psicanalistas que reclamaram. Ela e sua sociedade de produções foram condenadas a pagar 25.000 euros por danos e interesses.
Sophie Robert apelou imediatamente dessa decisão.

A apelação durou até 8 de novembro de 2013.
A decisão do julgamento saiu em 16 de janeiro: após dois anos de censura, o MURO está novamente autorizado a circular.

PSICANALISTAS ENTREVISTADOS
Alexandre Stevens, Esthela Solano, Eric Laurent, Bernard Golse, Pierre Delion, Geneviève Loison, Laurent Danon-Boileau, Daniel Widlöcher, Jacqueline Schaeffer, Yann Bogopolski, Aldo Naouri.

 

O MURO, OU A PSICANÁLISE À PROVA DO AUTISMO

Tradução : Julia Guedes da Rocha

Psicóloga ABA – Doutoranda em Psicologia Experimental : Análise do Comportamento

S1 : COMENTÁRIO DE INTRODUÇÃO SOBRE FUNDO PRETO
00 00 Comentário : Há mais de trinta anos, a comunidade científica internacional reconhece o autismo como um distúrbio neurológico que produz uma inabilidade na interação social. Todos os autistas apresentam anomalias em uma zona do cérebro, o sulco temporal superior, identificadas pela Dra. Monica Zilbovicius. Na França, a psiquiatria, que é extensamente dominada pela psicanálise, ignora firmemente essas descobertas. Para os psicanalistas, o autismo é uma psicose. Em outras palavras, um distúrbio psíquico maior resultante de uma má relação maternal. 00 33

S2 ALEXANDRE STEVENS
00 33 AS : Eu penso que o autismo é um modo de reação do sujeito que está evidentemente muito cedo na sua história lógica, se eu posso dizer, é aquilo que vem da invasão do mundo e do outro, ele se fecha. Ele se fecha, ele se coloca dentro de uma bolha se recusa a entrar profundamente nos mecanismos da linguagem. Ainda que alguns autistas falem, é mais do que o discurso nos mecanismos subjetivos. Isso quer dizer falar de acordo, mas sem estar implicado.
Banc titre :
DR ALEXANDRE STEVENS
Psicanalista ECF
Psiquiatra chefe da instituição para crianças le Courtil, Tournai

SR : o senhor faz uma distinção estrutural entre a psicose e o autismo?
Alexandre Stevens : Não. Para mim, não.
SR : os autistas são psicóticos?
AS : Sim. O autismo é uma situação extrema de algo que está no âmbio do conjunto de psicoses. 01 27

S3 PIERRE DELION
01 28 PD : A distinção estrutural que pode ser feita entre o autismo de um lado e a psicose infantil
Banc titre :
PROFESSOR PIERRE DELION
Psicanalista
Chefe do serviço de psiquiatria infantil do CHU de Lille

de outro, que é verdadeira em termos da descrição e da estrutura subjacente, na verdade não resiste a uma análise da continuidade entre essa primeira estrutura e a segunda. Parece-me que existem passagens entre a estrutura autística e a estrutura psicótica e a estrutura desarmônica. Agora, se dizemos isso, irritamos muito as associações de pais de crianças autistas, que pensam que não existe relação entre os autistas e os psicóticos. Na minha opinião isso é um erro, eu acho que há muita relação. 02 04

S4 GENEVIEVE LOISON
02 04 : GL : Esse é o crocodilo! Ele nos mostra imediatamente do que se trata, eles brincam com ele e quando colocam a mão dentro dele, eu fico preocupada, ou quando colocam um objeto, eu fico preocupada; quando eles se colocam sobre ele e quando eles batem em cima dele eu fico tranquila!

Banc titre :
DR Geneviève Loison
Psicanalista Lacaniana
Pédopsychiatre référente, Lille

SR : Por que, o que diz o crocodilo?
GL : eles se batem!
SR : o que o crocodilo significa?
GL : o crocodilo é a barriga da mãe, os dentes da mãe. 02 28

S5GENERIQUE
02 29 (les arbres et le ciel qui tournent + apparition du mur)

Titre : O MURO
Sous titre : A psicanálise à prova do autismo 02 45

S5 GENEVIEVE LOISON
02 46 SR : é o que Lacan chamava de mãe crocodilo?
GL : sim, então todo objetivo de nosso trabalho é de proibi-lo de comer…
SR : De comer a criança?
GL : colocamos uma barreira nele. Aí está. E então quando a criança começa a sair disso, ela às vezes coloca sua mão ! Às vezes coloca uma figura dentro.
SR : e o que representa esse lápis?
GL : isso é, aí está você não pode mais, é a barreira.
SR : é o falo do pai?
GL : Aí está, você não pode mais!
SR : é a lei do pai?
GL : sim.
SR : que barra a criança à sua mãe?
GL : isso mesmo.
SR : e que proibe a mãe de destruir a criança.
GL : isso, e de devorá-lo.
SR : isso também diz respeito aos autistas?
GL : sim. sim. Os autistas, é uma questão de etapa, pegamos os autistas em cada estágio. Elas se colocam lá dentro. Aí ficamos bem preocupados. 03 40

S5 TRIBU NORMANDE
03 48 Guillaume : Bom dia, eu me chamo Guillaume, sou autista a 80% e meu problema é que tenho problemas de comportemento algumas vezes. Eu tentei fazê-los o mínimo possível. Meus dois irmãos se chamam Julien e Gabriel. Um deles é hiperativo, Julien, ele tem problemas de comportamento como eu. Ele tem crises. E Gabriel que é « louco ». Que é louco… hey !!! E Gabriel que… E Julien que vem me aborrecer. Ai Julien ! E eles fazem isso, eles não param de me fazer cair!
SR : você pode nos apresentar Julien ? O grande Julien ?
G : O grande Julien é um irmão que é autista como eu, mas que não fala. Ele não é meu irmão. É o irmão de Florian. … Ele não fala. …. Socorro ! 04 51

S6 DANIEL WIDLOCHER
04 52 SR : em relação tanto à psicose como ao autismo existe uma explicação tradicionalmente utilizada, que uma depressão materna durante a gravidez ou nos primeiros meses de vida alteraria a relação mãe-criança e poderia ser responsável por esses distúrbios graves. DW : é o que colegas sérios dizem, consequentemente eu os escuto . 05 14

Banc titre :
PROFESSOR DANIEL WIDLOCHER
Psicanalista – APF
Ex-chefe do serviço de psiquiatria – Hôpital de la Pitié-Salpêtrière, Paris

S7 ALEXANDRE STEVENS
05 15 AS : pode ser esse o caso, quando a criança chega em tal condição em que o outro, seu primeiro outro, a mãe, está tão deprimido, quer dizer que estará ausente para ele, estará em um outro olhar sobre ele, em um outro tipo de ligação com ele, que pode fazer que a criança escolha se retirar. Às vezes quando a mãe está deprimida, no útero durante a gravidez, ou no nascimento, às vezes a criança pode ser autista. 05 45

S8 GENEVIEVE LOISON
05 46 GL : Uh, nós vimos vários, eu me lembro quando eu estava no hospital-dia, quando eu os vi principalmente. Eu vi coisas enormes, vazios enormes, distúrbios… eu vi mães abandonadas. Eu vi… Cada autista tinha, se eu ouso dizer, uma causa diferente. Eu vi várias mães abandonadas no fim da gestação. E a criança… as mães deprimidas também, as mães com depressão pós-parto depois, abandonadas em fim de gravidez que tiveram depressão após o parto, que estão elas mesmas no vazio e que colocam a criança no vazio relacional. 06 24

S9 DANIEL WIDLOCHER
06 24 DW : Por exemplo, uma grande carência. Por exemplo, uma mãe que por razões de depressão não cuida absolutamente de seu filho, fica calada diante dele, congelada, enquanto que a criança está se apegando a ela, procurando contatos, etc.. Isso pode, se durar muito tempo na infância, trazer consequências para o jovem adulto, que vai ficar muito frio, muito inibido no plano afetivo porque quando ele era pequeno ele teve a infelicidade de ter uma mãe muito fria 06 58

S10 GENEVIEVE LOISON
06 58 SR : existe uma incidência maior de casos de psicose ou de autismo nos países em guerra, nas favelas do Rio, em todas as circunstâncias em que as mães têm boas razões por estarem deprimidas ?
GL : eu não estou a par, não consigo responder, só posso dizer o que vi no consultório. Veja, eu… 07 15

S11 TRIBU NORMANDE
07 16 Sabrina : Lá ele fuma. Ele adora fazer fumaça… Ele gosta muito de ficar lá fora. Então, esse é o periodo do ano que ele menos gosta porque evidentemente ele não pode sair. … bem, comer e … se não, é verdade que ele sabe se ocupar sozinho, caminhar, comer, se mexer bastante, fazer …, Na IME ele anda de bicicleta, mas aqui eu não posso acompanha-lo porque ele sabe pedalar, mas não sabe frear e olhar, então isso seria arriscado. Ele anda de patins também. Mas depende do piso, é preciso que seja bem liso. Então ele faz na sala. 08 05

Banc titre :
SABRINA CAVRET
Mãe

COMMENTAIRE
08 10 SR : Curiosamente, para justificar a toxicidade materna contra a criança, os psicanalistas não hesitam em recorrer à biologia. 08 15

S12 ALEXANDRE STEVENS
08 17 SR : Como é possível explicar que uma depressão materna torne a criança autista? Começando pelo útero ?
AS : então, primeiramente já acontecem coisas no útero, eu não sou especialista em útero, mas coisas acontecem : a criança se mexe, as mães falam, as mães falam com ela e reagem a um certo número de estímulos. O que as crianças sabem da ligação com o outro no útero ? Isso não se passa completamente pela linguagem, mas por todo o ambiente de sons corporais. E… no fundo, será que a criança sente alguma coisa quando está no útero e a mãe está deprimida ? eu sou perfeitamente incapaz de lhes dizer isso, mas para mim pensar nisso não causa estranheza. 09 08

S13 ALDO NAOURI
09 09 AN : na maior parte do tempo o sintoma da criança não é nem mais nem menos que o sintoma que que lhe é restrito pelo inconsciente materno, principalmente porque as crianças estão em uma relação muito permeável na comunicação com sua mãe. A gestação condiciona e formata a criança, e e e e e realmente lhe dá alguma coisa inteiramente fabricada no seu corpo, que vem do corpo de sua mãe ; isso fragiliza o terreno, quer dizer, isso coloca a criança em um estado em que justamente sua resistência é alterada por condições que são feitas em seu ambiente. 10 01

Banc titre :
DR ALDO NAOURI
Pédiatre – analyste - essayiste

S14 BERNARD GOLSE
10 02 BG : Porque o bebê tem uma parte, a metade de seus genes, de seus cromossomos, vêm da mãe, a outra metade do pai. Então, tem uma parte que é como a mãe, essa não tem problema, mas tem uma parte que é como o pai e que traz imediatamente um problema e desde que o bebê é concebido, o organismo da mãe vai imediatamente secretar uma onde de anticorpos muito forte para expulsar esse bebê que é meio estrangeiro para o corpo da mãe. É um pouco triste dizer assim, mas a primeira coisa que, biologicamente, a mãe não suporta em seu bebê é a parte que vem do pai. O que é antropológico lá dentro é o duplo « não ». « Não, eu não reconheço esse bebê e eu quero ejetá-lo », mas, em seguida, um « não » ao « não ». É o que vamos encontrar na linguagem. Tem toda uma questão interessante e na linguagem vamos encontrar também negações duplas desse tipo. Temos isso no nível da biologia. 10 53

Banc titre :
PROFESSOR BERNARD GOLSE
Psicanalista - APF
Chefe do serviço de psiquiatria infantil do hospital Necker, Paris

S15 TRIBU NORMANDE
10 56 Uma feliz bagunça que funde todos os sentidos11 47

S16 DANIEL WIDLOCHER
11 48 SR : Por que os autistas severos não falam?
DW : Eu não sei. Minha primeira ideia é que eles não falam porque não são estimulados à palavra. Da mesma maneira que as crianças que são pouco cercadas por um « banho de linguagem » têm frequentemente dificuldades de linguagem, mesmo quando não são autistas. Consequentemente, há uma estimulação na linguagem, uma estimulação parental, do ambiente, que é muito importante. 12 15

S17 ALEXANDRE STEVENS
12 17 AS : Não somos conectados biologicamente pela linguagem. É claro que é preciso ter a capacidade de falar, mas o essencial é que a linguagem está justamente fora do organismo. 12 33

S18 GENEVIEVE LOISON
12 34 GL : Por que querem que eles se comuniquem, eles estão em fusão. Eles se comunicam sem palavras, não existe razão para eles adquirirem a palavra. A palavra supõe o acesso ao simbólico, o acesso ao pai. Eu não estou somente com a minha mãe. Existe um pai que me criou na origem, que foi o fundador, com sua potência paterna, que fez uma criança. A criança só descobrirá isso progressivamente.
SR : Em que o pai encarna o simbólico?
GL : ah isso é difícil, é o acesso à abstração, o acesso à distância. O acesso, é preciso dizer quando não se está mais colado. Ele vem se impor, entre a mãe e a criança. 13 21

S19 BERNARD GOLSE
13 21 BG : falar com o outro quer dizer que não nos confundimos mais com o outro. Quero dizer, enquanto não somos separados, enquanto somos confundidos no outro, enquanto somos fundidos no outro, que é o problema das crianças autistas justamente, para quem o outro não existe, mas depois quando o outro começa a emergir, eles ainda estão a uma distância verdadeiramente patológica, que não podem falar com o outro. 13 39

S20 GENEVIEVE LOISON
13 40 SR : As crianças autistas, dizemos que sua mãe não consegue captar seu olhar ?
GL : Sim, eles não estão nem um pouco na relação, eles ficaram dentro de um ovo.
SR : eles fogem da mãe porque estão fundidos a ela ?
GL : Eles não se descolaram, o que eu digo, eles ficaram dentro do ovo, dentro do útero. Eles ficaram dentro, por que você quer que eles olhem ou falem ? 14 00

S21 BERNARD GOLSE
14 01 BG : Só podemos pensar no outro, falar com o outro se tivermos espaço. Enquanto ainda estivermos incluídos, interpenetrados, fundidos com o outro, não podemos pensar nem falar com o outro. Isso é quase óbvio. Se a linguagem nos toca ao longo de toda nossa vida e a psicanálise passa pela linguagem, é que a linguagem fala apenas de separação. Isso é uma visão… muito, muito, eh… é uma visão do desenvolvimento extremamente específica da visão psicanalítica das coisas. 14 36

S22 TRIBU NORMANDE
14 42 Sandrine : Concretamente, foi quando nós o chavamavamos e ele não olhava, ele não respondia, simplesmente. Ele não falava, não brincava com outras crianças, não tinha nenhum interesse. Enfim, ele não brincava com outras crianças, ele não se misturava.
Banc titre :
SANDRINE GUY & STEPHANE MOERIS
Mãe    Pai

Stéphane : atraso para andar.
Sandrine : Esse era Guillaume com dois anos, 18 meses, dois anos, mesmo ainda com 2 anos e meio. E é verdade que ele alinhava todos os objetos, as garrafas de água, os maços de cigarro, ele pegava tudo e alinhava. Ele brincava com as luzes, « dia-noite-dia-noite-dia-noite ». Era bonitinho. Então, bastante estereotipia. Muita dificuldade com todas as mudanças, na verdade. Se mudávamos o caminho para ir a um lugar, poderia causar uma crise. Se passávamos na frente de um lugar que ele gostava, mas não parávamos, mesmo se passássemos apenas na frente. Era uma crise também. Nós fazíamos barulho com um papel de bala e ele vinha correndo. Por outro lado, é verdade que se ele estivesse a três metros de nós, nós o chamávamos : Guillaume ! Ele não se virava. Então é verdade que havia sinais suficientemente importantes. 15 35

S23 ESTHELA SOLANO
15 43 SR : O psiquismo não evolui independentemente do cérebro, ele não passeia sozinho no vazio. Se de um lado temos uma criança normal com um cérebro que funciona bem e de outro uma criança autista com um cérebro que não funciona bem, isso não faz uma diferença fundamental na sua capacidade de se comunicar com o mundo exterior ?  

Banc titre :
ESTHELA SOLANO
Psicanalista – ECF
Psicóloga clínica

ES : Essa maneira de conceber a causalidade do autismo é muito reducionista. O que podemos constatar quando cuidamos de crianças autistas é precisamente que os autistas são doentes da linguagem. Que o autismo é uma maneira de se defender da língua. 16 30

S24 TRIBU NORMANDE
16 38 SR : O que você sentiu quando entendeu que Guillaume era autista ?
Sandrine : eh… um golpe na cabeça. Enorme. o que está acontecendo conosco ?  o que acontece com ele, o que é ? Por que ? Nos perguntamos realmente tudo isso, passamos por fases de medo, de raiva, de culpa. Passamos por todas essas fases e então nos mexemos, nos dizímos que não adianta nada ter autopiedade, nós vamos encontrar o que for preciso para fazê-lo avançar. Para ajudá-lo a crescer corretamente, da melhor forma possível. Se integrar aos outros. Então é isso, fizemos todos os procedimentos de associações e descobrimos que havia métodos educativos para ensina-lo a se comunicar, a se desenvolver e para diminuir sua ansiedade. Portanto, se abrir para o mundo ? Simplesmente.
SR : É o método PECS ?
Sandrine : PECS, sim, e isso funcionou muito bem com o Guillaume.
SR : quer dizer, concretamente, são imagens ? Se comunicar com imagens ?
Sandrine : sim, exatamente, sim, quer dizer que para me pedir um copo de água ; eu comecei com um cartão porque ele pegava água, ele cuspia água no chão. E eu disse bom, eu começo imediatamente com isso ou, pois com isso ele vai fazer uma brincadeira para me pedir água, eu o ensinei a me dar o cartão, assim desde que ele me desse o cartão, ele tinha água. E depois de duas, três vezes, ele entendeu que para ter água era preciso me dar o cartão. Então, isso funcionou assim para a água no começo, depois continuou para os alimentos e para muitas outras coisas. E depois de quanto tempo ? Após dois, três meses de PECS ele começou a dizer suas primeiras palavras, e após seis meses ele não usava mais os PECs porque ele fazia frases.
SR : Com que idade ?
Sandrine : ele tinha quase 4 anos. Assim, isso foi muito benéfico para ele. Sua linguagem se desenvolveu bem grande com o PECs. Uma vitória sagrada isso também.
Stéphane : sim.
Sandrine : O primeiro « mamãe »: Oh ! Caímos no chão ! 18 33

S25 BRUNO BETTELHEIM
18 37 Commentaire : O psicanalista austro-americano Bruno Bettelheim foi o precursor do tratamento psicanalítico do autismo. Bettelheim comparava as crianças autistas aos prisioneiros dos campos de concentração nazistas que se balançavam para frente e para trás, terrificados, à espera de uma morte eminente. Por analogia, ele estava convencido de que os autistas eram vítimas de pais torturadores, de mães glaciais que haviam desejado a morte de seu filho. Os trabalhos de Bettelheim foram recusados nos Estados Unidos há mais de 30 anos. Mas e na França ? 19 08

S26 PIERRE DELION
19 09 PD : Bruno Bettelheim é uma vítima da injustiça da história contemporânea. Eu acho que ele fez um trabalho em uma época em que ninguém, é preciso dizer, se interessava pelos autistas. Um trabalho pioneiro perfeitamente exemplar. Ele se interessou pelos autistas porque ele saía de uma experiência de carência artificial nos campos de concentração. Ele chegou nesse planeta autístico se dizendo que as crianças que podem ter sofrido carências de uma maneira perfeitamente comparável ao que ele viveu como experiência própria, que tentaria trata-las a partir dessa hipótese, quer dizer, as separando dos pais. 19 49

S27 GENEVIEVE LOISON
19 50 GL : Não havia nenhum vínculo. As mães que têm, bem pouco vínculo, mesmo durante a gravidez, depois elas não tem nenhum e a criança é abandonada. Nós nos perguntamos como ela pode ter sido concebida, mas eles são concebidos mesmo assim. A criança autista está completamente no vazio, a gravidez é apenas orgânica, a criança não existe como pessoa. Ela está completamente no vazio relacional. E isso dá o que diz Bruno Bettelheim, sim, com certeza. 20 16

S28 YANN BOGOPOLSKY
20 16 YB : Não não, Bruno Bettelheim disse outras coisas além dessas, isso é uma caricatura, eu não digo isso por você, mas por aqueles que… bem… não é apenas sobre as mães, trata-se também do lugar do pai no desejo da mãe. E se trata também de uma certa quantidade de dados, principalmente aqueles com os quais a criança veio ao mundo, e do vínculo que se criou ou dos desejos de morte que tal mãe pode ter efetivamente por esse novo filho nascido. Mas todas as mães que tem desejos de morte por seu filho, todos esses desejos não vão fazer com que seu filho seja psicótico. 21 05

Banc titre :
YANN BOGOPOLSKY
Psicanalista kleiniana

S29 TRIBU NORMANDE
Transition en images.
Sous titrer l’inscription sur le panneau de la barrière : « ROUTE BARREE »

S30 JACQUES LACAN
21 34 Commentaire : No final dos anos 60, a psicanálise começa a declinar um pouco em todo o mundo, mas ela tem um crescimento fenomenal na França, sob impulsão de um psiquiatra ambicioso e carismático. Para Jacques Lacan, as crianças psicóticas e autistas são vítimas da alienação de uma mãe psicogênica, uma mulher que se recusa a abandonar sua gravidez porque é incapaz de se separar de uma criança substituta de um pênis que ela não recebeu quando ela nasceu. 21 57

Banc titre :
JACQUES LACAN
Psiquiatra - Psicanalista

S31 YANN BOGOPOLSKY
21 58 YB : No início, a criança pensa que é o falo da mãe, quer dizer que ele é esse objeto que viria dar tudo, preencher a mãe, fazê-la desfrutar completamente. 22 08

S32 GENEVIEVE LOISON
22 08 SR : o autismo é, então, a fusão materna?
GL : Espera aí, existem muitas teorias. Para mim, eu tenho ou a fusão ou o abandono completo e o vazio. É um ou é outro, os dois polos. Não é a mesma coisa. Quando eles estão completamente no vazio. Mas o que eu encontro aqui no consultório é mais uma fusão, não vejo os abandonos completos, eles vão para as instituições. 22 30
SR : Bruno Bettelheim diz que os autistas são vítimas de mães muito frias, e de um lado tem o Jacques Lacan que teoriza a psicose e o autismo pela fusão materna, por uma espécie de relação quase incestuosa entre mãe e filho ?

Banc titre :
DR Geneviève Loison
Psicanalista lacaniana
Psiquiatra infantil referente, Lille

GL : SIM ! sim, sim, exatamente.
SR : Então de outro lado tem uma mãe muito calorosa?
GL : sim, calorosa demais ou fria demais não é bom, é preciso uma mãe, como diz Winnicott, suficientemente boa, nem boa demais, nem calorosa demais, nem completamente vazia, evidentemente. Se não tem nada, se não tem relação, isso não dará nada.
SR : como explicar que duas atitudes, dois comportamentos completamente opostos possam levar ao mesmo resultado ?
GL : são mecanismos diferentes, nosso trabalho é recolocar as coisas no meio. 23 08

S33 DONALD WINNICOTT
23 09 Commentaire : O pediatra analista inglês Donald Winnicott é autor do conceito de « mãe suficientemente boa », segundo o qual uma mãe que quer fazer bem demais é tóxica para seu filho. Ele afirma que a maternidade faria que mães e bebês passassem por um estado de loucura transitória, protótipo de todos os distúrbios psiquicos futuros.
INSERT GENEVIEVE LOISON : Inconscientemente é isso que você está fazendo comigo, nas suas patas !
Commentaire : Com Winnicott o círculo é fechado: a maternidade é psicogênica por natureza. 23 38

S34 ALEXANDRE STEVENS
23 44 SR : Você está de acordo com a noção de loucura materna? Que toda mulher, toda mãe, atravessa nos primeiros meses após o parto uma fase de loucura que pode se mostrar problemática para o bebê se ela se prolongar ?
AS : Sim sim, mas o termo « loucura materna » não me incomoda.
SR : Você é psiquiatra, a loucura é muito referida, às vezes de maneira bem negativa.
AS : ah, não para mim. 24 06

S35LAURENT DANON BOILEAU
24 08 LDB : Existe essa ideia que chamamos familiarmente de loucura materna dos primeiros tempos, isso quer dizer de grosso modo que em um dado momento em que a mãe está realmente contente por ter seu filho e que forma um todo com ele e que não está em questão que quem quer que seja intervenha.
Banc titre :
LAURENT DANON-BOILEAU
Linguiste MODYCO CNRS-Psychanalyste SPP
Centre Albret Binet, Paris

SR : por que chamar isso de loucura, a propósito?
LDB : Porque existe a ideia de uma espécie de totalidade que seria, que dá uma espécie de potência, existe a ideia que a partir do momento em que fazemos algo assim, nós somos potentes, nada pode alcançá-lo, etc, etc. 24 41

S36 GENEVIEVE LOISON
24 42 GL : Você sabe a loucura, é o primeiro mês de vida. Mas o todo, todos estivemos loucos, ou quase…
SR : Por que qualificar esse instinto, essa relação, essa capacidade da mãe de decriptar e compreender o comportamento de seu filho fora da linguagem como loucura ?
GL : porque se tivéssemos ficado lá, a criança iria à loucura, a loucura é justamente o que você perguntava agora sobre o autismo, eles ficaram lá. 25 10

S37 LAURENT DANON BOILEAU
25 11 LDB : A loucura materna é um obstáculo maior para a emergência da linguagem ? Dito dessa forma, com certeza ! 25 17

S38 ALDO NAOURI
25 18 AN : A mãe se situa do lado da natureza, e desse lado ela é um animal, enquanto que o pai foi aquele que fundou a cultura. Foi o que fez Claude Lévi Strauss dizer essa definição magnífica quando ele fala do casal, ele diz que é a união dramática da natureza e da cultura. Ok ? Quando o direito sustenta a cultura, dizendo que existe um pai, ele diz nós estamos dentro da cultura, o retorno à natureza não deve ser feito. 25 50

S39 TRIBU NORMANDE
25 57 Sandrine : Nós havíamos recusado que ele fizesse uma psicoterapia de grupo e ele foi colocado em psicoterapia individual. Então nós esquecemos de precisar que eram as duas que recusávamos na verdade. Tivemos um relatório, que foi feito sobre a intervenção no Guillaume, e nós ficamos verdes ! Eram coisas completamente delirantes, fobia sexual, que ele se liquefazia, termos alucinantes e isso nos deixou com medo. Então, encontramos a psicoterapeuta e terminamos tudo na hora. Era texto de Lacan e nós tínhamos colocado Guillaume lá dentro, resumindo é isso. E isso dá medo.
Stéphane : e depois isso não parecia o Guillaume ; sobre o espelho, dizia que ele tinha medo da sua imagem no espelho, sendo que no cotidiano ele passa em frente ao espelho e isso não traz nenhum problema, então eu acho que ele também brincou. Ele tinha uma estereotipia, ele se colocava no chão e imitava uma folha. Então, ela inventou delírios : corpo mole sobre um chão duro...
Sandrine : sim, colocar seu todo mole sobre um todo duro. Francamente… ! 27 06
27 07 Commentaire : Mãe fria demais, mãe calorosa demais, mãe boa demais ou não suficientemente, mãe mortífera, mãe « fusionante », mãe tóxica por natureza …
Guillaume : Atenção, vai fazer barulho ! Estou avisando !
Sabrina : grande carinho à sua mamãe. Ele ouviu um barulho, ele tem medo.
Sandrine : Ele tem medo?
Sabrina : Eu acho, hein Juju ? Você ouviu um grande barulho ?
Commentaire : Ainda restava, entretanto, um último passo a seguir : Ao longo das entrevistas, diversos psicanalistas me afirmaram que o autismo era a consequência de um incesto materno. 27 36

S40 ALEXANDRE STEVENS
27 35 AS : A função paterna consiste em intervir de duas formas : primeiramente « dizer que não », e na fusão da mãe e da criança, o pai é aquele que proíbe a mãe.
SR : que proíbe sexualmente ? É isso ?
AS : que proíbe o prazer da mãe, quer dizer, na sua ambiguidade, que proíbe também que a criança tenha prazer exclusivamente com a mãe, assim como proíbe que a mãe tenha prazer exclusivamente com a criança. 28 01

S41 JACQUELINE SCHAEFFER
28 02 JS : No nascimento de uma criança existe uma lua de mel, hein ! Algumas vezes não é assim uma lua de mel, por ter seu filho e que forma um todo com ele e que não está em questão que quem quer que seja intervenha.
Banc titre :
JACQUELINE SCHAEFFER
Psychanalyste – SPP
Enseignante formatrice en psychanalyse

S42 YANN BOGOPOLSKY
28 30 SR : O fato de que uma mãe se ocupa de seu filho como de um ser humano e o considera um ser humano, isso não é sexual…
YB : Sim, a sexualidade no início não é no sentido que os adultos entendem, como sexualidade genital. É o que para Freud, já que foi ele que teorizou isso, vão ser os lugares do corpo que vão dar prazer à criança. Então, o corpo da criança e o corpo da mãe estão em uma união estreita e mesmo o bebê que vem ao mundo não sabe que ele é separado do corpo da mãe. Ele pensa que são um. Enfim, ele pensa, atribuímos isso a ele, ele pensa ser apenas um junto com a mãe. Então, é um trabalho de separação de corpos e o prazer que a criança vai ter na relação com o outro, que é primeiramente sua mãe, vai se dar 1) em um corpo a corpo e 2) os prazeres vão estar relacionados aos diferentes orifícios do corpo. 29 34

S43 LAURENT DANON BOILEAU
29 34 LDB : Existem psicanalistas que há muito tempo falaram de algo que chamaram de censura do amante. Isso quer dizer uma coisa muito simples, quer dizer que quando a mãe está trocando o bebê, e então de repente ela tem um prazer, grande demais para o seu gosto, ao tocar o bebê. E ela diz « oh la la », isso é estranho, não é lógico, eu o trato como…
SR : uma coisa incestuosa ?
LDB : uma coisa um pouco incestuosa, o que está acontecendo ? E bem, ela vai pensar no homem com quem ela o concebeu, em outros termos em seu amante e isso vai criar uma distância entre ela mesma e o bebê em questão. É isso que chamamos de censura do amante.
SR : é preciso que ela tenha um homem na cabeça para que ela não esteja em uma relação incestuosa com seu filho ?
LDB : Não é que seja preciso, mas é que não se pode escapar disso! 30 28

S44 JACQUELINE SCHAEFFER
30 29 JS : Nos cuidados maternos, a mãe pode muito bem excitar o pênis de um menino, quero dizer, os cuidados maternos, e os meninos não se privam disso, há muitos meninos que quando são trocados, quando são… Veja, limpos pela mãe, o pequeno pênis reage. 30 45

S45 YANN BOGOPOLSKY
30 45 YB : O pai está lá para proibir e, ao mesmo tempo, proteger a criança. Quer dizer, proteger a criança do desejo incestuoso da mãe.
SR : Você acha que todas as mães têm desejos incestuosos com seus filhos ?
YB : ah sim, elas tendo consciência ou não ! Sim.
SR : De onde vem essa convicção?
YB : Já dos escritos psicanalíticos, quero dizer que o desejo não é proibido, é a sua realização que é.
SR : Mas que o amor de uma mãe por seu filho é um desejo incestuoso, é…
YB : sim, porque ela já sofre muito por se separar de seu filho que nasceu, existe uma unidade que se faz que se o pai de uma criaça, ou aquele que ocupa seu lugar, que não é necessariamente o progenitor, não vem dizer à mãe que o prazer, isso que se passa entre eles, não vem lembrar seu desejo à mãe e o prazer que ela vai poder ter por meio do desejo que liga os dois, a mãe vai ter prazer em fazer carinho em seu filho, em tê-lo sobre seu corpo o dia todo. O que eu sei, enfim, vai ter prazer… e para lembrar sua questão de agora pouco, que o corpo é bem presente e que a sexualidade, com o tanto que ela tem a ver com o prazer que o corpo dá, e que é retomado pela linguagem, é desde o início presente nas questões dos psicanalistas. 32 20

Commentaire : Nesse caso, por que a maior parte dos incestos é cometido por homens ? 32 25

S46 ALDO NAOURI
32 26 AN : Primeiramente é preciso assinalar uma coisa, que o incesto pai-filha é infinitamente mais frequente que o incesto mãe-filho. E por que não tem ou não tem mais incesto mãe-filha ? Por uma razão simples, a atitude materna com os filhos, sejam meninos ou meninas, é uma atitude espontaneamente de essência incestuosa. O sonho de toda mãe é que não falte nada a seu filho, a tendência da màe em relação ao filho é uma tendência incestuosa, então ela não tem necessidade de passar ao ato. Na sua atitude já existem coisas o suficiente, ela não passa ao ato. 33 07

Banc titre :
DR ALDO NAOURI
Pédiatre – analyste - essayiste

S47 JACQUELINE SCHAEFFER
33 08 JS : O incesto paterno não faz verdadeiramente muitos estragos. Isso torna as filhas um pouco débeis, mas o incesto materno leva à psicose. Quer dizer, é a loucura. Não pode existir um incesto materno, de um menino com sua mãe, sem que haja um enorme distúrbio mental, não é possível. Justamente por causa dessa famosa barreira, mas a filha com o pai, ela não saiu do pai, hein, ela não esteve no ventre do pai ; então tem qualquer coisa, é um incesto secundário, eu diria isso. O incesto primário, o verdadeiro, é a mãe. É de penetrar a mãe. E os meninos que penetram suas mães são psicóticos. Enquanto que as filhas não. As filhas podem, há muita experiência de meninas com um incesto paterno, elas não manejam isso tão mal. Bom, não podemos dizer que tudo vai muito muito bem. Há algumas que ficam muito muito mal, outras menos mal e outras que manejam… de outra forma. O que eu dizia, um pouco débeis. Mas é… é muito diferente. 34 10

S48 TRIBU NORMANDE
34 14 Commentaire : Para os psicanalistas o pai também é culpado : culpado por ser ausente ou transparente, culpado por ser submisso à sua mulher, culpado por ter sido incapaz de se colocar entre a criança e o ogro materno. 34 44

S49 GENEVIEVE LOISON
34 47 GL : Ele não pôde! Você sabe quantas vezes nós vemos pais que teriam querido e isso que chamamos de o foraclusão. A foraclusão do nome do pai.
SR : o que isso quer dizer?
GL : boa pergunta! Isso quer dizer que o pai, em termos simples, fez a criança mas que ele não existe, ele é negado, sua existência é negada.
SR : a mãe nega sua existência ?
GL : nega, sua função, sua existência, apenas ela e a criança contam, o pai não existe, ele talvez esteja lá para trazer um pouco de dinheiro, ele é como um figurante. Não tem a função de um marido, amado, considerado, no seu discurso Quando a mãe considera o discurso do pai, a criança descobre o discurso.
SR : se a criança não fala é porque a mãe desconsidera o discurso do pai ?
GL : Bem, não tem muito aqui, é sobretudo em hospital psiquiátrico, em hospital-dia que eu tinha grandes autistas profundos. 35 40

S50 ESTHELA SOLANO
35 40 ES : Fundamentalmente a função do pai é uma função simbólica. E algumas vezes o pai real não. E por que não tem ou não tem mais incesto mãe-filha ? Por uma razão simples, a atitude materna com os filhos, sejam meninos ou meninas, é uma atitude espontaneamente de essência incestuosa. O sonho de toda mãe é que não falte nada a seu filho, a tendência da màe em relação ao filho é uma tendência incestuosa, então ela não tem necessidade de passar ao ato. Na sua atitude já existem coisas o suficiente, ela não passa ao ato. 33 07

ESTHELA SOLANO
Psicanalista – ECF
Psicóloga clínica

S51 GENEVIEVE LOISON
36 04 GL : Ou então ele não tem lugar e ele só existe na violência, ou ele mesmo é violento. Às vezes nos damos conta que ele é violento para poder existir, que ele força as portas de alguma maneira, quando não as abrimos ! 36 20

S52 ESTHELA SOLANO
36 22 ES : Quando falamos da função paterna, falamos de alguma coisa que orienta na vida, como um tipo de estrada, uma bússola.
SR : Por que a mãe, como mulher, não poderia dar um lugar à criança ? Mesmo ela sozinha?
ES : há mães que podem transmitir bem uma função paterna.
SR : Mas por que não é uma função materna ? Por que não é um simbólico materno ? Por que atribuir um sexo ?
ES : a lei da mãe é uma lei do capricho. 36 55

S53 ALDO NAOURI
36 58 AN : Em 1984, um biólogo fez uma demonstração extraordinária de que a placenta é exclusivamente de origem paterna, quer dizer que ela está sob controle dos genes trazidos pelo espermatozóide. Dito de outra forma, a placenta é o que permite que a mãe não destrua seu filho e que o filho não mate sua mãe.
SR : é o que permite que a mãe alimente seu filho.
AN : sim, que permite, que faz transitar e filtrar tudo que a mãe pode trazer como alimento. Dito de outra forma, é um elemento regulador entre eles, é uma interposição. Significa que temos o sentimento assim, que a atitude do pai dentro das decisões que ele toma desse patriarcado que ele instaura, dessa dominação masculina, etc., foi sempre uma pesquisa empírica dessa função que a placenta ocupa e que permite a cada criança vir ao mundo sem ser destruída. 38 06

S54 TRIBU NORMANDE
38 06 Sandrine : Quando ele era menor, como ele tinha um diagnóstico de autista, de autista severo, nós tivemos a idéia de levá-lo ao IME (instituição especializada). O IME de Avranches tem uma boa reputação em relação ao autismo e, em seguida, progessivamente e com o passar do tempo, na verdade, ele não colocou seus pés lá, pois na escola tudo ia super bem, ele se desenvolvia bem, a linguagem se desenvolvia super bem, ele tem boas competências, em matemática entre outras. E então agora você vê, ele chegou no 6o ano.
SR : ele fica na escola o dia todo?
Sandrine : o dia todo, 6o ano normal, com dificuldades com certeza, mas ele está lá. Ele tem uma acompanhante terapêutica que fica com ele na classe, que o acompanha no conjunto. Isso se passa muito bem, e você ainda tem super resultados.
Guillaume : sim.
Sandrine et Stéphane : sim !
Sandrine : de fato, o que o diferencia dos outros alunos do ensino fundamental é o recreio. No recreio ele apresenta esteriotipias às vezes, ele faz brincadeiras que os adolescentes não fazem mais, ele vai empurrar ou então ele dá gritinhos, ele vai fazer… ele gosta muito de Mario kart, então ele vai fazer Mario kart no pátio do recreio, por isso as outras crianças são um pouco… mas bom, eles tiveram uma informação completa, para isso o colégio foi ótimo, Guillaume já é conhecido das outras crianças.
G : os animais lá têm medo ?
Sandrine : e também eles avisaram os colegas da sua classe, então tudo vai bem.
SR : qual é a sua matéria preferida?
G : matemática.
SR : por que você gosta de matemática?
G : porque é fácil. 39 31

S55 COMMENTAIRE
39 31 Commentaire : Desde Bruno Bettelheim, o grande princípio psicanalítico do tratamento de autistas consiste em separar as crianças de seus pais. Pais se submetem algumas vezes à pressão para fazer terapia, pois eles são considerados a fonte do problema. Ainda hoje na França e na Bélgica, um certo número de instituições psiquiátricas são lugares inacessíveis às famílias, que não são informadas do que se passa lá. Em que consiste o tratamento psicanalítico das crianças autistas ? 39 55

S56 ESTHELA SOLANO
39 56 ES : Digamos que quando recebemos uma criança autista, praticamos uma psicanálise que é uma pura invenção. Nós nos vemos diante de um sujeito que na maior parte do tempo não dispõe de linguagem. 40 12

S57 LAURENT DANON-BOILEAU
40 13LDB: Bom, meu gênero é ter uma atitude de observação. Isso quer dizer que com uma criança autista eu faço muito pouco. O que quer dizer muito pouco ? Que eu sento, me coloco ao lado dele e espero que aconteça alguma coisa. E eu esqueço, eu tento esquecer tudo. Esqueço o tempo, esqueço que somos pressionados pelo tempo para que ele adquira linguagem, eu esqueço tudo. Porque eu me digo que a partir do momento em que estou nessa espécie de leveza, pode ser que aconteça alguma coisa que eu não possa prever. 40 57

Banc titre :
LAURENT DANON-BOILEAU
Linguista MODYCO CNRS – Psicanalista SPP
Centro Alfred Binet, Paris

S58 ALEXANDRE STEVENS
40 57 AS : Você vê autores como Tustin ou Magaret Mahler que explicam como inicialmente « amansar » a criança. Estamos no consultório, mas nas instituições é a mesma coisa. Amansar a criança, não sei mais qual dos dois descreveu isso, significa ficar um pouco recuado, fora da direção do seu olhar, não falar muito alto, mais seguir o que ele diz do que tentar antecipá-lo. 41 25

Banc titre :
DR ALEXANDRE STEVENS
Psicanalista ECF
Psiquiatra chefe da instituição para crianças Courtil, Tournai

S59 ESTHELA SOLANO
41 25 ES : Nenhuma disposição para controlar, nenhuma disposição educativa, nenhuma imposição do que quer que seja.
41 34

S60 BERNARD GOLSE
41 35 BG : no fundo, tentamos por todos os meios fazer com que a criança autista sinta que um outro existe e que ele não é ameaçador. 41 42

S61 ESTHELA SOLANO
41 43 ES : Trata-se justamente de levar conta os detalhes mais insignificantes e de perceber que esse detalhe insignificante pode ser interpretado como querendo dizer alguma coisa e, então, pouco a pouco podemos intervir supondo que há um sinal, então extraímos como sendo da ordem de um querer dizer. 42 22

S62 LAURENT DANON-BOILEAU
42 23 LDB: Se a criança não faz absolutamente nada durante toda a sessão, se eu cochilo ao seu lado, tanto faz. Estou acostumado a isso no meu trabalho de psicanalista. Mas isso supõe um certo número de coisas. 1) isso supõe não se entediar quando se pensa com suas próprias idéias. 2) isso supõe também remar ao encontro de todo um funcionamento social que quer que nos apressemos pelo tempo, e se a criança ainda está assim em dez anos, não é você quem vai… Tudo isso é verdade, eu me coloco na posição de ser psicanalista, quer dizer não ter memória nem expectativas. E a partir desse momento, acontece alguma coisa e isso que é uma atitude profundamente psicanalítica. 43 19

S63 BERNARD GOLSE
43 20 BG : quando…. Talvez… sim.

Banc titre :
PROFESSOR BERNARD GOLSE
Psicanalista – APF
Chefe do serviço de psiquiatria infantil do hospital Necker, Paris

BG : eu sou sensível ao que você me diz, que seria preciso que o espectador sentisse que aceitamos ir até o fim de nossa convicção.
SR : bem, sim
BG : …………43 44

S64 LAURENT DANON-BOILEAU
43 47 LDB : Se você canta uma canção e a criança autista gosta, tem alguma coisa que acontece. Você vai me dizer que não é preciso ser psicanalista para isso. Sim, se você não usar isso como um método educativo. Sim, se você me diz depois de tudo que a criança vai fazer, eu não me importo, visivelmente isso parece interessá-la, fazemos isso e depois nós veremos bem. Ou não veremos. O ponto fundamental da minha atitude enquanto analista face à face com essas crianças é o fato de abdicar da idéia de um progresso. E isso não é óbvio, hein, eu lhe peço para acreditar que… Meu ideal analítico exige que eu abandone essa dimensão, mas acontece que eu pertenço a uma sociedade na qual sou pago para dar cuidado. Consequentemente, eu fico em conflito, mas essa situação de conflito, se um analista não não é capaz de viver isso, é preciso que ele mude de profissão, pois esse é o fundamento da prática psicanalítica. 44 46

S65 PIERRE DELION
46 47SR : qual é o impacto da psicanálise nas crianças autistas ? O que uma criança autista pode razoavelmente esperar em termos de resultados ?

Banc titre :
PROFESSOR PIERRE DELION
Psicanalista
Chefe do serviço de psiquiatria infantil do CHU de Lille

PD : Isso eu não posso responder, isso não é uma questão para um psicanalista ! 44 57

S66 LAURENT DANON-BOILEAU
44 57 SR : O que uma criança autista pode razoavelmente esperar de um trabalho analítico ? Em termos de resultados ?

LDB : o prazer de se interessar por uma bolha de sabão. Eu não posso lhe responder outra coisa… 45 33

S67 TRIBU NORMANDE
46 04 Commentaire : Contudo, existem soluções : elas se chamam PECS, TEACCH e ABA. Esses métodos educativos e comportamentais foram elaborados nos Estados Unidos há mais de trinta anos para permitir que os autistas se comuniquem e se abram ao mundo. Graças a essas ferramentas adaptadas à sua deficiência, os jovens autistas apresentam em alguns meses progressos consideráveis. Infelizmente, os psicanalistas se opõem ferozmente à sua implantação na França. 46 26

S68 ALEXANDRE STEVENS
46 42 AS : No mundo de língua francesa, a invasão das técnicas cognitivo-comportamentais é uma invasão nova. Recente, mas muito presente atualmente, a psicanálise se bate contra essa invasão. Um certo número de colegas, especialmente Jacques Alain Miller, encabeçaram essa luta, esse combate, outros também em outros movimentos. Esse é um combate muito importante para manter viva a dimensão da subjetividade, das singularidade de cada sujeito em relação a essa idéia de « enquadrar » as pessoas. 47 25

S69 ERIC LAURENT
47 25 EL : Se você quiser, trata-se, na verdade, para a psicanálise de ser também esse aparelho de desencantamento. Existem esperanças que surgem do lado da biologia, e essas esperanças seriam maravilhosas de se acreditar. Se podemos acreditar que amanhã, amanhã teremos as soluções ! A psicanálise como discurso que ilumina todas as crenças, tenta fazer com que a humanidade viva sem acreditar em modismos importantes, isso faz parte de seu esforço. Portanto, o diálogo com as neurociências não é simplesmente nós mesmos nos informarmos dos resultados e afirmarmos que isso não muda nossa prática fundamental, a orientação da nossa prática, é também poder fazer com que a humanidade viva sem ter esperanças muito grandes nas diferentes boas novidades que são publicadas todos os dias e cuja intenção é tentar manter uma taxa de boas novidades em um ambiente onde existem poucas. 48 27

Banc titre :
ERIC LAURENT
Psicanalista – ECF
Professor formador em Psicanálise

S70 TRIBU NORMANDE
48 35 Commentaire : Nos anos 80, 100% dos psiquiatras e psicólogos franceses eram formados pela psicanálise. A partir dos anos 90 essa tendência sofre um declínio, mas eles ainda estão próximos de 80% hoje em dia… Uma situação única no mundo, juntamente com a Argentina, que tem enormes consequências no cuidado com os deficientes. 48 56

S71 GUILLAUME
49 10 Commentaire : Com 4 anos Guillaume foi diagnosticado como autista severo. Sua psiquiatra se recusou de aplicar nele os métodos de comunicação adaptados aos autistas e desaconselhou sua integração escolar. Mas seus pais ficaram firmes. Graças a sua tenacidade e ao encontro de uma equipe pedagógica formidável, Guillaume segue atualmente uma escolarização normal. Ele é um excelente aluno… 49 30

S72 JULIEN
49 34 Commentaire : Por falta de lugar em uma estrutura adaptada a sua deficiência, Julien passou o início de sua infância em um hospital-dia psiquiátrico. Com 14 anos, ele é totalmente dependente, para os menores gestos do cotidiano. Hoje, Julien faz acompanhamento em um centro para crianças que cuida muito bem dele, mas apenas uma educação específica, adaptada ao comportamento dos autistas, permitiria que ele se tornasse continente, menos dependente e que talvez aprendesse a falar. Na França, esses educadores especializados são raros, portanto caros, inacessíveis às possibilidades de sua mãe. 50 04

S73 EPILOGUE
50 18 Commentaire : Estima-se entre 430.000 e 600.000 o número de pessoas com autismo na França. 50 23

 

GENERIQUE DE FIN LE MUR

Ecrit et réalisé par           
Sophie ROBERT

Produit par                       
Océan Invisible Productions

Musique originale          
Marc BOUR

Image                                  
Jérémy LEPELLEY
Nicolas BITAUD
Peterson ALMEIDA

Montage                      
Peterson ALMEIDA
Jonathan RIO

Mixage                      
Laurent RODIER

Location de matériel
AUVITEC

Avec la participation de
AUTISTES SANS FRONTIERES
Vincent GERHARDS
Delphine PILOQUET

Remerciements          
Sabrina CAVRET
Julien SALMON
Sandrine GUY
Stéphane MOERIS
Guillaume MOERIS
Julien MOERIS
Gabriel MOERIS

Et par ordre alphabétique
Yann BOGOPOLSKY
Laurent DANON-BOILEAU
Pierre DELION
Bernard GOLSE
Eric LAURENT
Geneviève LOISON
Aldo NAOURI
Jacqueline SCHAEFFER
Esthela SOLANO
Alexandre STEVENS
Daniel WIDLOCHER

 

 

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